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O que é febre reumática?
Infecções de garganta causadas por estreptococos do grupo A (um tipo de bactéria) são bastante comuns. Na grande maioria dos casos, a infecção não é grave e melhora em pouco tempo.
Mas, em algumas pessoas, o sistema imune comete um “erro de identificação” e, ao invés de atacar somente a bactéria, também começa a atacar algumas regiões do corpo. Quando isso acontece, começam a surgir uma série de sintomas:
- Se o sistema imune atacar as articulações, começa haver inflamação e dor nas articulações (poliartrite);
- Se o sistema imune atacar as válvulas do coração, começa haver palpitações, dores no peito, sensação de cansaço ou de falta de ar (cardite);
- Se o sistema imune atacar a pele, surgem manchas avermelhadas (eritema marginado);
- Se o sistema imune atacar o tecido subcutâneo, surgem pequenas protuberâncias abaixo da pele (nódulos subcutâneos);
- Se o sistema imune atacar o cérebro, surgem movimentos involuntários e abruptos que atrapalham a realização dos movimentos voluntários (coréia de Sydenham).
“Febre reumática” é o nome que se dá para essas complicações que podem ocorrer após infecções de garganta por estreptococos do grupo A.
A febre reumática geralmente inicia na infância e atinge mais meninas do que meninos.
O que é coréia de Sydenham?
“Coréia” é um distúrbio de movimento ocasionado por uma dificuldade do cérebro em inibir movimentos indesejados. Ocorrem movimentos involuntários, de início abrupto e que migram de uma região para outra do corpo. Todos os movimentos voluntários (andar, falar, escrever, comer, etc.) são parasitados pelos movimentos involuntários da coréia, provocando interrupções e desvios de trajetória.
“Coréia de Sydenham” é o nome que se dá para a coréia originada da febre reumática.
O que é disartria hipercinética?
Em torno de 50% das pessoas com coréia de Sydenham apresentam problemas de fala. Geralmente os problemas são:
- Respirar movimentando muito o tórax e pouco o abdômen (tipo respiratório superior);
- Dificuldades para respirar e falar ao mesmo tempo (incoordenação pneumofonoarticulatória);
- Voz soprosa e áspera;
- Variações inadequadas no tom e no volume da voz (variações excessivas de pitch e loudness);
- Fala fanhosa (hipernasalidade);
- Fala “embolada” ou distorcida (articulação imprecisa), principalmente de sons como R, L e LH;
- Fala lenta (redução na taxa de elocução).
“Disartria hipercinética” é o nome que se dá a esses problemas de fala ocasionados pelos espasmos musculares da coréia de Sydenham.
O que é gagueira?
Geralmente o problema de fala de pessoas com coréia de Sydenham é a disatria hipercinética. Entretanto, já foram relatados alguns casos de gagueira pós-febre reumática.
A gagueira é um distúrbio do ritmo da fala, que faz com que sons e sílabas não sejam finalizados e iniciados no tempo esperado. Em conseqüência, aparecem hesitações na fala das pessoas que gaguejam que sinalizam a dificuldade de ritmo, tais como: prolongamentos de sons, repetições de sons, repetições de sílabas e bloqueios ("travamentos”). Em alguns casos, as hesitações gaguejadas são pouco perceptíveis devido a comportamentos de evitação (por exemplo, substituições de palavras, reformulações de frases, "rodeios para falar" e uso excessivo de marcadores discursivos).
As rupturas de fala que ocorrem na gagueira são involuntárias. Isso significa que o falante não tem controle total sobre sua fala, não sendo possível simplesmente optar por não gaguejar.
Para saber mais sobre gagueira, clique aqui.
Avaliação fonoaudiológica
A avaliação dos distúrbios de fala causados pela febre reumática é composta por:
Anamnese: são coletadas informações sobre a febre reumática e os tratamentos realizados, sobre o início dos sintomas de fala e como foram se desenvolvendo e também sobre o impacto das dificuldades de comunicação no dia-a-dia.
Avaliação propriamente dita: são colhidas amostras de fala em situação de repetição de palavras, repetição de frases, fala semi-espontânea e leitura em voz alta. As amostras são analisadas em termos de “velocidade de fala”, pausas silenciosas, freqüência e tipologia de hesitações/disfluências, coordenação entre respiração e fala, tom e volume da voz, qualidade vocal, nasalidade e articulação dos “sons de fala”. A fala semi-espontânea também é analisada em relação à estruturação textual (habilidade para descrever, narrar e argumentar). Quando necessário, também incluímos avaliação específica de compreensão de fala, vocabulário, leitura, escrita e audição.
Tratamento fonoaudiológico
Como a febre reumática geralmente acomete crianças, a parceria com os pais é fundamental. São fornecidas orientações aos pais sobre as atitudes mais adequadas para auxiliar a criança a se comunicar de forma mais eficiente.
Em relação aos problemas de fala detectados na avaliação, são desenvolvidas atividades específicas:
1) Disartria hipercinética
- Melhora da coordenação entre respiração e fala: a fala normalmente ocorre durante a expiração, enquanto as inspirações ocorrem durante as pausas silenciosas. São realizadas atividades para que o paciente aprenda a fazer pausas silenciosas em número, duração e localização adequados durante a fala (inserindo as inspirações nos momentos de pausa) e para que produza a fala somente durante a expiração.
- Diminuição da hipernasalidade: são realizadas atividades para melhor direcionar o fluxo de ar para a boca, diminuindo assim o grau de nasalização de sons de fala que são mais oralizados. Quando a hipernasalidade for intensa, o paciente é encaminhado para confecção de prótese elevadora de palato.
- Melhora da articulação dos “sons de fala”: são treinados os sons específicos que o paciente tem dificuldade para produzir. Geralmente inicia-se com situações mais simples (como repetições de palavras e de frases) e vai-se progredindo até situações mais complexas (leitura e fala semi-espontânea).
- Aumento da “velocidade de fala”: o ritmo da fala resulta da sucessão de durações de vogais, consoantes e pausas. A melhora da coordenação entre respiração e fala e a melhora da articulação dos “sons da fala” também são estratégias úteis para adequar a “velocidade de fala”.
- Melhora da voz: o tom e o volume da voz não são constantes ao longo da fala. Aumentam ou diminuem conforme a ênfase que o falante deseja colocar em certas palavras. São realizadas atividades para que o paciente enfatize as palavras que considera mais importantes em sua mensagem, modulando assim o tom e o volume da voz.
2) Gagueira
- Conhecimento sobre os fatores que melhoram e pioram a gagueira: a fluência da fala pode mudar de um dia para o outro ou até mesmo em um mesmo dia, dependendo da situação em que a pessoa está envolvida. É fundamental conhecer os fatores lingüísticos, emocionais e sociais que interferem na fluência para poder agir sobre eles e manter a fluência.
- Suavização: muitas vezes a pessoa que gagueja utiliza força muscular em excesso para articular os “sons da fala”. Quando isso ocorre, percebe-se que há excesso de esforço físico para falar, que se manifesta principalmente nos bloqueios. A suavização consiste em aprender a articular os “sons da fala” com menor tensão muscular e é especialmente indicada quando há dificuldades com sons específicos.
- Influência emocional: sentimentos como medo, insegurança, timidez e vergonha costumam piorar a gagueira. Essas emoções disparam a resposta de congelamento, que é um estado psicofisiológico de imobilidade corporal. Quando se tenta falar durante o congelamento, a gagueira piora. No tratamento, são abordadas as situações que disparam a resposta de congelamento para que o paciente compreenda por que considera essas situações ameaçadoras e para que possa adotar estratégias mais eficazes para lidar com essas situações.
Referências:
Alm, P. A. (2005). On the causal mechanisms of stuttering. Tese de doutorado. Lund: Lund University.
Barbosa, E. R.; Haddad, M. S.; Gonçalves, M. R. R. (2005). Distúrbios do movimento. In Nitrini, R. & Bacheschi, L. A. A neurologia que todo médico deve saber. 2ª ed. São Paulo: Atheneu. pp. 297-321.
Cardoso, F.; Vargas, A.P.; Oliveira, L. D.; Guerra, A. A. & Amaral, S. V. (1999). Persistent Sydenham chorea. Movement Disorders 14(5), pp. 805-807.
Carrara de Angelis, E.; Irineu, R. A. & Vilanova, L. C. (1997). Coréia de Sydenham: Avaliação fonoarticulatória. Pró-Fono Revista de Atualização Científica 9(2), pp. 17-21.
Atendimentos clínicos
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- Duas sessões por semana, com duração de 50 minutos. Indicado para pacientes que desejam obter resultados mais rapidamente.
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Texto escrito por:
Sandra Merlo, fonoaudióloga especializada em Distúrbios da Fluência.
Vivência pessoal com a gagueira.
Graduação em Fonoaudiologia pela USP.
Mestrado em Lingüística (Fonética/Fonologia) pela UNICAMP.
Membro da Comissão Organizadora Nacional do "Dia Internacional de Atenção à Gagueira".
Fundadora e diretora científica do "Instituto Brasileiro de Fluência".
Fundadora da "Associação Brasileira de Gagueira"; presidente de 2004-2006.
Publicação de artigos em periódicos nacionais e internacionais.
Participação em congressos, cursos, palestras e grupos de discussão.
AVISO: O conteúdo aqui apresentado é dirigido ao público leigo. Diversos termos técnico-científicos foram substituídos por termos leigos para facilitar a leitura. Portanto, este texto não deve ser tomado como referência para pesquisas científicas.
